Janeiro é o mês dos sobreviventes. Dominam janeiro os que conseguiram resistir à neurose familiar do Natal, à histeria do 13° e ao ancestral e inútil costume de rabiscar balanços na noite do reveillon. Se dezembro é mês caro aos suicidas, em janeiro o costume, entre os que restam, é pedir demissão e divorciar-se. Para depois planejar vida nova com gosto de ressaca na boca.
Janeiro é domingo de manhã depois da noitada nublada e cheia de segredos do último sábado.
Em janeiro, ainda há esperança. Em compasso de espera, acredita-se nas promessas feitas para o ano novo – e que costumam durar até o Carnaval em fevereiro. E há quem diga que janeiro só sirva para isto: anunciar o Carnaval. Cá nos trópicos, nada acontece em janeiro – o “ano”, como chamam, só começa em março. Janeiro é a nossa siesta marcada no calendário. É o intervalo entre dois atos de uma peça, quando se vai à porta do teatro fumar um cigarro e olhar o céu. E janeiro também é despertar com o sol desenhando listras no teto, virar para o lado, dormir mais alguma horas e acordar com um telefonema de alguém inesperado que diz: “Acabei de chegar, estou no aeroporto, vem me buscar e vamos tomar um café.”
Janeiro é o mês em que se recomenda, entre as chuvas de verão e mordidas de mosquito, que se rompam os espelhos retrovisores. Que se trabalhe nos dias de sol, ignorando quem agora está de férias, banhando-se seminu na praia. Ou que não se faça nada enquanto os outros trabalham, sem qualquer culpa.
Janeiro é deixar cada um com seu janeiro.
Para as crianças, janeiro dura pelo menos seis meses. É aquele espaço entre o último boletim do ano, o Natal e o início da próxima série. Em janeiro, a próxima série falta tanto pra começar que nos parece improvável – como hoje, adultos, nos é a separação da mulher, em algum janeiro dos que nos restam, ou a morte, que neste hemisfério sempre cai em maio.
Para crianças muito jovens, recomenda-se beber água da primeira chuva de janeiro. Assim, começarão a falar mais rápido, e, em poucos anos, estarão segredando promessas de janeiro e confissões de dezembro uns para os outros.
Janeiro passa muito devagar, é mês desapressado, e acaba quando menos se espera. Mas não há um janeiro só em janeiro. Há anos inteiros que são janeiro, há algumas mulheres que são janeiro na nossa vida, e há aquelas tardes em que janeiro se anuncia – ainda que estejamos em novembro.
Quando se está de chinelos num dia de semana, esquecendo-se do tempo na rua ou na casa de um novo amigo, é janeiro. Quando pela primeira vez o amor se declara, é janeiro – pois janeiro é ingênuo e acredita nessas coisas. Ao contrário do que se pensa, janeiro é abrir presentes (dezembro é, no máximo, comprá-los.) O olhar da mulher desconhecida faz do momento janeiro. E janeiro são as longas conversas solitárias em caminhadas por novas cidades.
A cada momento, recomeça janeiro – dentro ou fora da cronologia, janeiro sobrevive.
João Paulo Cuenca - Vogue, janeiro de 2009