segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fuso horário

Tentar dormir no mesmo fuso horário. A idéia é tentar manter um eterno estado de despedida. Pra não parecer que existe vida depois da volta. Pra não se acostumar com o café da manhã sozinho, com os aviões que levantam vôo e dissipam poeira. Agarrar-se na música, seja ela triste ou feita pra gritar e dançar pelas novas cidades feitas de sonho. Pra esquecer os relógios errados, todos eles a volta lembrando sempre que o dia começa apesar de.

A direção foi invertida por alguns segundos de felicidade estranha. Tornou a volta uma verdadeira ida, em direção a lugar algum. Respirei fundo uma vez, e depois esqueci de tragar de volta o ar. Ficou uma vida em suspenso, uma esperança que não deixa dormir. Um eterno fuso horário. Deixou a volta verdadeiramente adiada, ao ponto de partida.

Adiou a respiração, para uma vida póstuma, acreditada em vagas esperanças. Tornou a rotina prazerosa, em dias fatigados, castigado por poeira de aviões que jamais alçam vôo. Os sonhos se dão em lugares destituídos de sentido, sem fuso algum, onde esboço algum antigo sorriso. O fuso não me deixa mais dormir.

sábado, 16 de janeiro de 2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A última semana de verão

O calor entálpico deixava todos cansados a sua volta, até os cachorros e gatos de rua, acostumados ao maltrato. Porém, em cada gotinha de suor sabia escorrer um dia, questionando algo sobre o próprio tempo. Saiu correndo do apartamento, trancou o café com leite intocado em cima da pia. O taxista balbuciava aventuras silenciosas, que de nada serviam para apartar a situação estranha que calava dentro do estômago – jogou o telefone pro espaço.
O cardápio no restaurante e suas figuras alaranjadas, e todo o caos na Nossa Senhora de Copacabana refletiam esse alvoroço que urdia em mar, gritos, e álcool. A sua cidade já não mais cabia em si, consumia-se em escala anual, e por isso já bastava.
Distanciou-se do pânico, por um minuto ao ver o Cristo, e dançou a última entoada de sábado no calor costumeiro daqueles dias de muita luz. No sol seguinte evocou seus santos, cantou os mantras populares daquela gente queimada de praia e fechou o zíper das malas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Janeiros em Janeiro

Janeiro é o mês dos sobreviventes. Dominam janeiro os que conseguiram resistir à neurose familiar do Natal, à histeria do 13° e ao ancestral e inútil costume de rabiscar balanços na noite do reveillon. Se dezembro é mês caro aos suicidas, em janeiro o costume, entre os que restam, é pedir demissão e divorciar-se. Para depois planejar vida nova com gosto de ressaca na boca.
Janeiro é domingo de manhã depois da noitada nublada e cheia de segredos do último sábado.
Em janeiro, ainda há esperança. Em compasso de espera, acredita-se nas promessas feitas para o ano novo – e que costumam durar até o Carnaval em fevereiro. E há quem diga que janeiro só sirva para isto: anunciar o Carnaval. Cá nos trópicos, nada acontece em janeiro – o “ano”, como chamam, só começa em março. Janeiro é a nossa siesta marcada no calendário. É o intervalo entre dois atos de uma peça, quando se vai à porta do teatro fumar um cigarro e olhar o céu. E janeiro também é despertar com o sol desenhando listras no teto, virar para o lado, dormir mais alguma horas e acordar com um telefonema de alguém inesperado que diz: “Acabei de chegar, estou no aeroporto, vem me buscar e vamos tomar um café.”
Janeiro é o mês em que se recomenda, entre as chuvas de verão e mordidas de mosquito, que se rompam os espelhos retrovisores. Que se trabalhe nos dias de sol, ignorando quem agora está de férias, banhando-se seminu na praia. Ou que não se faça nada enquanto os outros trabalham, sem qualquer culpa.
Janeiro é deixar cada um com seu janeiro.
Para as crianças, janeiro dura pelo menos seis meses. É aquele espaço entre o último boletim do ano, o Natal e o início da próxima série. Em janeiro, a próxima série falta tanto pra começar que nos parece improvável – como hoje, adultos, nos é a separação da mulher, em algum janeiro dos que nos restam, ou a morte, que neste hemisfério sempre cai em maio.
Para crianças muito jovens, recomenda-se beber água da primeira chuva de janeiro. Assim, começarão a falar mais rápido, e, em poucos anos, estarão segredando promessas de janeiro e confissões de dezembro uns para os outros.
Janeiro passa muito devagar, é mês desapressado, e acaba quando menos se espera. Mas não há um janeiro só em janeiro. Há anos inteiros que são janeiro, há algumas mulheres que são janeiro na nossa vida, e há aquelas tardes em que janeiro se anuncia – ainda que estejamos em novembro.
Quando se está de chinelos num dia de semana, esquecendo-se do tempo na rua ou na casa de um novo amigo, é janeiro. Quando pela primeira vez o amor se declara, é janeiro – pois janeiro é ingênuo e acredita nessas coisas. Ao contrário do que se pensa, janeiro é abrir presentes (dezembro é, no máximo, comprá-los.) O olhar da mulher desconhecida faz do momento janeiro. E janeiro são as longas conversas solitárias em caminhadas por novas cidades.
A cada momento, recomeça janeiro – dentro ou fora da cronologia, janeiro sobrevive.

João Paulo Cuenca - Vogue, janeiro de 2009